A dinâmica familiar e as relações de trabalho evoluíram, mas o reconhecimento do esforço não-remunerado dentro do lar ainda é um desafio jurídico. Em uma decisão que marca um importante avanço na proteção de direitos, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) consolidou um entendimento que valoriza a dedicação de mulheres que abdicam de suas carreiras em prol da família e dos cuidados domésticos.
A decisão unânime da Terceira Turma no Recurso Especial nº 2.138.877/MG, relatado pela Ministra Nancy Andrighi, estabelece um novo paradigma para a fixação de alimentos entre ex-cônjuges. A Corte Superior reconheceu que a contribuição indireta através do trabalho doméstico não remunerado é um fator determinante para o recebimento de pensão, especialmente quando essa dedicação gerou um desequilíbrio econômico significativo entre as partes após a separação.
Perspectiva de Gênero: Um Olhar para a Desigualdade
A relevância do julgamento se acentua com a aplicação expressa do Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A Ministra Andrighi foi enfática ao confrontar a “ideia preconceituosa e equivocada acerca da divisão sexual do trabalho, na qual homens são sempre os provedores e as mulheres cuidadoras”.
Este reconhecimento formal do impacto das desigualdades de gênero nas relações familiares e econômicas é um passo crucial. Ele legitima a luta por uma Justiça que enxergue as particularidades e vulnerabilidades de cada caso, indo além da análise superficial de rendimentos formais.
O Caso Emblemático: Sacrifício Profissional e Vulnerabilidade Econômica
A controvérsia judicial teve origem em um caso que ilustra uma realidade comum em muitos casamentos de longa duração. O casal, casado por 29 anos, viu a esposa progressivamente abandonar sua trajetória profissional para se dedicar integralmente à administração do lar e aos cuidados familiares.
Enquanto ela se afastava do mercado de trabalho, o marido ascendia em sua carreira, chegando a obter uma aposentadoria especial com valores substanciais. Com a separação, a ex-esposa se viu em uma situação de extrema vulnerabilidade, sem renda, necessitando de auxílio dos filhos e dependendo de programas sociais.
O STJ, ao analisar a situação, compreendeu que o sucesso financeiro do ex-marido foi, em parte, viabilizado pelo apoio incondicional e pelo “trabalho invisível” da mulher em casa. Não seria justo, portanto, ignorar essa contribuição no momento da partilha de bens ou da fixação de pensão.
Implicações Práticas: O Fim de um Mito
Esta decisão do STJ reforça que a pensão alimentícia não é uma “esmola” ou uma concessão temporária, mas uma medida de solidariedade familiar e de proteção à pessoa em situação de vulnerabilidade. O trabalho doméstico, mesmo sem remuneração, é uma forma de contribuição econômica que merece ser valorizada e protegida pelo Direito.
Para as mulheres que se encontram em situações semelhantes, essa jurisprudência abre portas para que possam buscar seus direitos com maior segurança jurídica. É um lembrete de que o sacrifício de uma carreira em prol da família tem valor legal e deve ser levado em conta em um processo de divórcio.
A decisão representa um marco na jurisprudência brasileira e oferece um caminho mais justo e equitativo para o Direito de Família, garantindo que a proteção econômica se estenda a todos, independentemente da forma como contribuíram para a vida a dois.
Descubra mais sobre Santos e Souza Advogados | Escritório de Advocacia em Belém - Pará
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

